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Pólos autossustentáveis: modelo de ocupação urbana de qualidade

Fev 01 2010

João Crestana

João CrestanaJoão Crestana, presidente do Secovi-SP, da Comissão da Indústria Imobiliária da Câmara Brasileira da Indústria da Construção e reitor da Universidade Secovi

Vamos começar de onde estamos. Sem deixar o passado de lado, esquecê-lo ou desmerecê-lo. Muito pelo contrário. Os anos de 2007, 2008 e 2009 foram de inúmeras conquistas e vitórias para o setor imobiliário e para a sociedade. Conseguimos provar o quanto o segmento é importante e necessário para o desenvolvimento de uma Nação. Superamos os efeitos de uma das piores crises financeiras internacionais sem grandes abalos ou prejuízos. Fomos interlocutores diretos com o governo federal na elaboração do programa Minha Casa, Minha Vida, primeiro passo para solucionar o deficit habitacional brasileiro de 8 milhões de moradias. Mas é chegado o momento de decidir por quais caminhos o mercado imobiliário deve seguir. Vamos planejar o futuro, com metas de longo prazo.

Para esse debate, queremos o contraditório, ou seja, reunir aqueles que pensam diferentemente de nós, e tornar as discussões mais produtivas. As informações sobre as cidades e os rumos da atividade imobiliária no País têm de ser plurais, multilaterais e amplas. Não pode prevalecer a visão pura do empreendedor imobiliário, mas sim a dos cidadãos, dos brasileiros. É necessário conhecer as novas direções da habitação e do desenvolvimento urbano do Estado de São Paulo e, assim, oferecer alternativas ou somente exemplos positivos para o restante do Brasil.

Descobrir as preferências dos consumidores de imóveis, principalmente das famílias de baixa renda, é uma das maneiras de disseminar conhecimento e mudar paradigmas. Sabe-se que consumidores de mais alta renda têm preferências arquitetônicas leves. Mas, e a população que compõe o deficit de 8 milhões de moradias? Por décadas, foram construídas moradias padronizadas, sem conforto e personalidade, que por vezes levaram à criação de guetos, como muitos que ainda existem na cidade de São Paulo. Os consumidores de baixa renda são alegres, confiantes, gostam de cores vivas. E as preferências habitacionais e a qualidade devem ser entendidas e respeitadas regionalmente nesses empreendimentos.

Quais as metragens adequadas para atender o nosso cliente de baixa renda? Existe um deficit composto por pessoas que trabalham, recolhem impostos e vivenciam a dinâmica das cidades. Também há uma demanda orgânica anual aproximada de 1,5 milhão de novos consumidores de imóveis. Estes, muitas vezes utilizam-se da informalidade para obter sua moradia. Temos de compreender sua segmentação e características.

O programa Minha Casa, Minha Vida configura-se como primeiro passo de uma política habitacional perene de Estado. Entretanto, é preciso vontade política e comprometimento com o futuro para desenvolver um planejamento estratégico de longo prazo que priorize, principalmente, a destinação de recursos abundantes e permanentes para a habitação. Sugerimos pensar o setor habitacional para 2022, quando serão comemorados os 200 anos de Independência. Uma agenda positiva também é necessária em razão da realização no Brasil da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Esses eventos são oportunidades para o País se estabelecer, definitivamente, como protagonista mundial. Vamos olhar para o futuro, mensurar a evolução dos segmentos imobiliários e de infraestrutura e, assim, criar um ambiente de desenvolvimento urbano equilibrado, favorável, sem surpresas para empresários, investidores e sociedade em geral. Metas pragmáticas e transparentes conferem a indispensável segurança aos negócios.

Temos consciência da responsabilidade do setor da construção civil e imobiliária, um dos mais importantes economicamente, por essa razão os empresários se preocupam com as políticas públicas, mantendo a visão prognóstica de um país melhor. Temos interesse em consolidar bairros, cidades e estados melhores. Condomínios bem geridos têm moradores mais conscientes de seus deveres e direitos, o que demanda qualidade empresarial. A ampliação do poder de compra da população leva as empresas a atender a essa enorme demanda, por conseguinte são impelidas a aprimorar constantemente a tecnologia construtiva. Esse ciclo virtuoso movimenta toda a economia e impulsiona a geração de empregos. O cliente passa a ser aliado do negócio e do desenvolvimento urbano equilibrado.

O setor imobiliário defende a ocupação urbana equilibrada, calcada em planejamento e conhecimento das cidades, e dessa forma melhorar a mobilidade. É essencial aproximar trabalho e moradia, criando pólos autossustentáveis – as “cidades dentro das cidades”. No Plano Diretor Estratégico atual existe a previsão de criar áreas de intervenção urbana e de recuperação, mas as normativas legais requerem aperfeiçoamentos que somente acontecerão com a ativa participação da sociedade.

A Diagonal Sul – área urbana que se estende da Mooca até o ABC, ao longo do rio Tamanduateí -, por exemplo, está preparada para incorporar esse modelo de modernidade urbana. Seria interessante aliar os conhecimentos de arquitetos e urbanistas brasileiros e estrangeiros para chegar a um modelo factível de pólos autossustentáveis para a cidade de São Paulo. Em Pirituba será construído um grande centro cultural, e a região pode ser boa alternativa para receber um projeto-piloto. Vamos acabar com visões limitadas de desenvolvimento urbano, algumas vezes alicerçadas em interesses particulares e mesquinhos. A sociedade paulistana deve defender a cidade, com consciência de que todos têm de ceder em benefício coletivo.


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